Que diz o Evangelho? Que houve música nos céus de Belém quando Jesus nasceu. Tudo começou com o aparecimento de um anjo e pastores que velavam o seu rebanho durante as vigílias da noite. Pastores: gente humilde. De quase nenhum conceito social — nem podiam servir de testemunhas em processos judiciais, diz o Talmude. Mas piedosos. Que suspiravam pela vinda do Messias, o que havia de ser. O anjo sabia, pois, com quem estava falando, enquanto falava aos pastores: "Eis que vos trago novas de grande alegria, que será para todo o povo; pois na cidade de Davi vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E isto vos será por sinal: adhareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura" (Lucas 2:10-12). Logo depois, vieram outros anjos — quantos? Um exército deles, diz o texto sagrado. Um exército, não: muitos exércitos. Uma multidão de exércitos celestiais. O céu cobrindo-se literalmente de anjos: "E no mesmo instante apareceu com o anjo uma multidão dos exércitos celestiais, louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade com os homens" (Lucas 2:13-14). Uma cena apoteótica. De arrebatar. Os céus convertidos em pautas musicais e vozes de anjos interpretando aquela partitura. Música de Deus porque ela é uma expressão do belo e Deus é o belo absoluto. No céu haverá música tocada e cantada, sugere a Bíblia em mais de uma página. Instrumental e vocal, acrescenta — com que e como não sabemos, sendo muito pobre qualquer analogia que possamos fazer com os instrumentos e as vozes deste mundo. A prova de que haverá música no céu é que os anjos sabem cantar — cantaram nos céus de Belém. E que cantaram? Cantaram um hino em duas estrofes: "Glória a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade para com os homens" (Lucas 2:14). Glória e paz, eis o duplo sentido da volta de Cristo ao mundo. Glória a Deus pela redenção do homem, essa a razão de ser da manjedoura em Belém e da cruz no Calvário. O homem de volta a Deus pelas mãos de Jesus marcadas de cravos, essa a única maneira de se consumar a volta. Por isso a cruz é gloriosa, tão gloriosa que o apóstolo Paulo teve este arroubo: "Mas longe esteja de mim gloriar-me a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo" (Gaiatas 6:14). A manjedoura participa dessa glória porque o Calvário começa em Belém. A cruz é uma projeção da manjedoura. Sem encarnação hão haveria redenção. Por isso, em Belém vos nasceu o Salvador, disse o anjo aos pastores. Diante da manjedoura de Belém desarma-se a mão do fascínora e desmobilizam-se os exércitos. Se nascendo na manjedoura Cristo nasce também no coração dos homens. Fora disso, não — se Cristo for apenas uma figurinha de presépio. Pr. Rubens Lopes